Em memória do mestre Yokokoji (Luís Pereira Nunes)

(o texto abaixo é uma missiva do praticante Luís Pereira Nunes por ocasião do falecimento do mestre Yokokoji)

Não há dúvida que o Sr. Yokokoji me marcou pela sua simplicidade, quase ingenuidade, gentileza e disponibilidade pouco habituais. São estes os traços que mais me impressionaram no seu caráter.

Recordo com muita saudade as horas que ele passava a corrigir-nos os minuciosos e infindáveis pormenores do tiro – por vezes não chegando ele próprio a disparar uma única flecha.

Apesar de ser mais velho e do seu formalismo japonês, era fantástica a sua juventude e disponibilidade em se adaptar – a si e ao Kyudo – ao nosso estilo, partilhando as nossas conversas, os nossos lanches e até as nossas sestas, nos intervalos da prática.

Recordo alguns momentos de forma especial.

A vez que veio cá o seu amigo Sr. Araki, considerado um dos expoentes do Yabusamé, que veio treinar connosco e nos fez uma demonstração do tiro a cavalo – sem ter cavalo nenhum – imitando os movimentos do galope enquanto atirava.

Voltei a encontrar o Sr. Araki no Japão. Passou comigo um Domingo, para assistir ao meu exame de Kendo. Ajudou-me a comprar material de Kyudo e a carregar com ele –  ainda por cima pagou o lanche a mim e a mais 4 amigos… mas isso é outra história!

Marcou-me uma resposta que o Sr. Yokokoji deu a uns colegas que chegavam sempre atrasados aos treinos e o questionaram sobre um aspeto mais difícil do tiro: “Sabem… o Kyudo é muito difícil e complicado, por isso tem de se começar pelo princípio. A primeira coisa a aprender… é chegar a horas!”.

Lembro-me também da forma tão humana como o Sr. Yokokoji se despediu quando ia voltar para o Japão, para estar mais perto da família, sentindo aproximar-se a velhice.

A forma como “passou o testemunho” à Sr.ª Maki. E também a forma tão respeitosa e  tão terna como ela se relacionava com ele, mais velho mas menos graduado no Kyudo.

E quando ele cá voltou uns anos depois para nos visitar, já mais velho e com mais limitações.

Na verdade vejo nas pessoas que tenho conhecido no Kyudo, em maior ou menor grau, a simplicidade, gentileza e disponibilidade que tanto admirei no Sr. Yokokoji.

Foi com muita pena que soube da morte do Sr. Yokokoji. Infelizmente as pessoas que me têm servido de referência estão todas a partir. Os meus Pais, Tios… resta-me guardar a sua memória, ensinamentos, e honrar o seu exemplo.

Penso que a melhor forma de honrar a memória do Sr. Yokokoji é continuar a praticar Kyudo com a mesma amizade e da mesma forma como que ele nos ensinou.

Tenho pena de não poder estar hoje convosco. Bom treino. Bom São Martinho.

Um abraço a todos do vosso amigo, Luís Pereira Nunes

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